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Segunda, 04 de Janeiro de 2010 16h41
DENILSON CARDOSO DE ARAÚJO: Serventuário de Justiça do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, http://denilson_araujo.blog.uol.com.br/
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Lições de Avatar, o filme - Autor: Denilson Cardoso de Araújo

Denilson Cardoso de Araújo


Avatar, o novo filme de James Cameron, reúne muitos atrativos, cada um deles a merecer crônicas próprias e mais aprofundadas. Apenas farei um pequeno rol. Numa ficção científica com efeitos digitais incríveis, o fundo é uma fábula ecológica centrada na Teoria de Gaia, em que Richard Lovelock descreve a Terra como um ser vivo e que, em Pandora, o planeta da história, tem como coração uma grande árvore-mãe. Temos uma revisão, em contexto galáctico, da história da conquista e espoliação das Américas, só que desta vez permitindo a chance da revanche aos peles vermelhas, que aqui são azuis e pontuados de brilho. Azuis e brilhos, por sinal, de seres, pássaros e mamíferos extraterrestres lembram muito uma conexão do figurino e maquiagem do  musical Cats, com a arte de Rosa Magalhães,  carnavalesca de melhor palheta do Rio de Janeiro, que já serviu com muitas honras à Imperatriz Leopoldinense.

Temos ainda a velha e interminável discussão sobre desenvolvimento científico, suas ilusões, inconseqüências e ingenuidades. Inocência esta - a dos cientistas e tecnólogos que imaginam “puras” e sem engajamentos suas disciplinas - sempre útil ao complexo industrial-militar, com resultados desastrosos e desumanos para a segurança de humanos e não humanos.  Há o romance impossível, fonte maior de energias para os enfrentamentos propostos, confirmando a força da libido e sua conexão com valores espirituais como móvel da grandeza.

Há uma discussão subjacente entre virtualidade e realidade, em que o virtual se torna mais firme, forte e completo que o real, com passagem pela hipótese Matrix, em que seres conectados numa espécie de berço tecnológico fogem de uma realidade de crueza para um mundo de seduções maiores. Há uma linguagem de games com edição agilíssima que, como se vê de muitas dessas propostas que grassam no meio juvenil, carrega uma certa dose de espiritualidade oriental e aceitação de uma reverência pelo primitivismo do idealizado bom selvagem de Rousseau. O conceito de avatar, por sinal, que figura como jargão costumeiro no mundo da eletrônica de rede,  é emprestado da filosofia hinduísta onde significa, dentre outras coisas, encarnação como a de Vishnu, que se veria (pela oitava vez, se não me engano) em Krishna. No filme, tem-se um corpo-nave, que permite o ingresso e a interação de um ser em outro mundo, ou no mesmo mundo, mas com habilidades diferenciadas. Ao contrário de Matrix, onde Keanu Reeves passeia com um corpo inteiramente virtual, embora conectado ao corpo físico, o corpo de Avatar é um duplo, físico, palpável.

Em que pese as incríveis cenas de batalhas entre seres e máquinas, que certamente seduzirão as platéias ávidas por explosões de adrenalina, no médio prazo o filme tem tudo para se tornar um ícone geracional, como o foram O Senhor dos Anéis há pouco e Guerra nas Estrelas” antes, a criar seguidores e a propor, aqui e ali, pequenas filosofias de honra, com dizeres e ditados próprios.  E, lembremos, o filme tem lá seu final feliz com os vilões da história (nós, os humanos) sendo vencidos sob o comando de um deficiente físico antes amargurado agora resgatado pelo amor e pela missão a que se entregou (salvar Pandora), e  que se incorpora ao avatar definitivamente, abandonando a existência humana que desumana se tornou. Paganismos à parte, que os há à farta pontilhando a obra, que haja as características de um novo nascimento nesse processo, é emblemático, pois esta, embora não exclusiva, é a essência da pregação cristã. Pregação esta que, reconhecem os cristãos que se puseram a refletir sobre o mau uso do Evangelho, precisa, sem se desprender do valor essencial da Graça, reconectar-se ao conceito da árvore que produz bons frutos, boas obras, portanto, pois só assim se pode ser cristão sem ser hipócrita. Afinal, a salvação cristã não é um travesseiro para repousar, mas uma ferramenta para o purificar-se, para o agir, para ser sal da terra. E isso inclui a questão ecológica.

Pandora, todos lembramos, é o nome da deusa grega cuja curiosidade incontrolável abriu a caixa onde guardavam-se todos os males, derramando-os sobre a humanidade. Visto o estrago, correu a fechar a caixa. Conseguiu salvar apenas um elemento, que mal não era, era a esperança. Sempre há questionamentos sobre a metáfora: por que a esperança estava assentada numa caixa de males? A resposta é simples. A esperança é a imperatriz espiritual do mundo material. Sem ela, existência não há. Assim Deus fez quando o homem decaiu, concedendo-lhe o antídoto para os venenos humanos. Trancar a esperança na caixa, é na verdade, maldade maior que derramar suas tragédias. Assim a Pandora helênica fez, medrosa e ingenuamente.

A curiosidade científica tem, certamente, aberto muitas caixas de mazelas, tragédias e desconfortos contemporâneos. Mas, quando vemos que a ciência começa a se curvar, aqui e ali, à hipótese da divindade como elemento faltante às equações matemáticas, como incógnita espiritual que completa vazios materiais, podemos dizer que, da ciência, subjaz a esperança da percepção de seus limites, somente vencidos pela integração à presença divina. O problema é que essa perspectiva é limitadora do atual modus operandi da ciência, pois pressupõe o respeito equânime a todo ser vivo, desde cobaias e embriões, a árvores-mãe, o que, como não interessa aos financiadores, às empresas e complexos militares, como os observados no filme, passa a desinteressar pesquisadores ávidos por descobertas insensatas. Por isso, muitos intelectuais e cientistas insistem em manter essa verdade do divino, essa esperança,  trancada em sua caixa. Mas é preciso libertá-la. Para isso, o novo nascimento proposto por Cristo e pela hipótese do filme de Cameron, em que, como num Evangelho, o aleijado volta a andar. E, cego moral que era, passa a ver.

Por fim, o filme oferta reflexões aos profissionais do Direito. Vê-se a grande corporação de Avatar, interessada nos minérios de Pandora, dominando a cena, sem contenções. Vê-se os cientistas, submetidos pela empresa, sob as garras dos militares mercenários. A ótica destes é a de uma guerra de conquista. E, como há séculos, o primeiro passo é a desqualificação do outro, que é o diferente, portanto, o “selvagem”, o “bárbaro”. Não surge uma única alma que imagine serem os habitantes de Pandora possuidores de direitos subjetivos. Não há uma só citação de trecho legal que sustente as posições afirmadas no filme, por qualquer dos lados. A avidez por lucro, o domínio do mais forte, é o que determina o comportamento invasor.

Parece que nesse futuro proposto por James Cameron sequer Direito existe. Ao contrário de Guerra nas Estrelas, onde havia eleições (elitistas e aristocráticas, é certo, mas eleições), um Senado a ser seduzido, uma estrutura dirigente e um fiapo de Estado de Direito, em Avatar, Pandora é um território invadido sem qualquer consideração por Cartas, Tratados e Direitos. Existe hoje um Acordo da ONU firmado nos anos 1960,  sobre Direito Aeroespacial, que prevê a exploração espacial apenas para fins pacíficos. Vê-se que no futuro proposto no filme de James Cameron, tal Acordo foi destruído, se é que, em 2154, a ONU ainda existe (se é que já hoje ainda existe, no sentido de ser relevante).

A reflexão primária, fundada na realidade, e trazida por inúmeros filmes e obras de ficção científica é a do domínio das corporações sobre os governos e, portanto, da completa falta de limites na sua atuação exploradora e predatória. O recente fracasso na conferência de Copenhagen deveria nos preocupar mais do que tem ocorrido. A gigantesca concentração do capital, o predomínio do megaempreendimento, a unificação dos mercados e seu controle pelas grandes corporações, a plataforma de dominação e manipulação inédita que representa a rede de computadores, tornam a existência humana frágil e sujeita aos humores desses poderosos que se mascaram por detrás de pequenos pedágios pagos em políticas de socorro ao meio ambiente que com a outra mão destroem em passo largo.  E não será com pequenas reparações, como por exemplo, as que ocorrem em Juizados Especiais Cíveis que as empresas irão se emendar. Ali elas obtém vitórias, mesmo quando perdem. Pois indenizam em módicas quantias, no varejo, o estrago gigantesco que proporcionaram no atacado.

Logo, que os profissionais do Direito percebam agora como, na visão de James Cameron serão irrelevantes - ou inexistentes - em 2154. Claro que alguém obstará que ao final, se o Direito não subsiste, a Justiça vence, como demonstraria o fecho da história. Mas isso é outro mundo e outra história. Por ora, ficam os alertas e profecias do excelente filme. A Justiça de amanhã se constrói com o Direito de hoje, com sua vigilância e operação contínua voltada para os princípios luminosos, iluminadores e libertários, nunca para a literalidade cega e escravizante, para a legalidade positivista e escassa.



Conforme a NBR 6023:2000 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), este texto científico publicado em periódico eletrônico deve ser citado da seguinte forma: ARAÚJO, Denilson Cardoso de. Lições de Avatar, o filme - Autor: Denilson Cardoso de Araújo. Clubjus, Brasília-DF: 04 jan. 2010. Disponível em: <http://www.clubjus.com.br/?colunas&colunista=2468_Denilson_Araujo&ver=545>. Acesso em: 09 set. 2010.

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Quinta, 09 de Setembro de 2010
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