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Terça, 10 de Novembro de 2009 16h03
DENILSON CARDOSO DE ARAÚJO: Serventuário de Justiça do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, http://denilson_araujo.blog.uol.com.br/
e-mail: denilsoncdearaujo@gmail.com
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Que terríveis dias. Que dias tristes! Que a alegria da luta nos conforte! - Autor: Denilson Cardoso de Araújo

Denilson Cardoso de Araújo


OLHA SÓ, caro leitor... Eu li jornal todos os dias desde os 14 anos, até mais ou menos os 40. Depois achei muito chato ver que o mundo, a política, as coisas se repetiam, e que assim seria, independente da minha presença à frente das manchetes, e abandonei o compromisso. Mas de vez em quando, dou uma geral. E a última foi de fazer doer o coração. Vejam o pequeno apanhado de notícias recentes envolvendo a questão da violência escolar, todas extraídas do sítio noticioso “G1”.
•    Alunos de 15 anos são detidos por ir à escola com arma escondida na mochila - Dupla carregava um revólver calibre 38 na Grande SP. Um deles alegou que era ameaçado de morte por ex-aluno. 15/10/09 - 07h10 -
•    Para achar incendiário, diretora pune alunos e proíbe todos de entrar na escola. Tudo começou quando um dos estudantes colocou fogo na lixeira da sala de aula, na segunda-feira (5). 08/10/09 - 07h26 -
•    Escola depredada na Zona Sul de SP foi invadida quatro vezes em dois meses - Desde 2007, foram seis invasões, nas quais foram furtados computadores e dinheiro. Na mais recente, vândalos destruíram tudo o que encontraram pela frente – incluindo livros outros materiais escolares. - O material dos professores foi jogado em cima da mesa, junto com ketchup e mostarda. A sala da direção foi arrombada, revirada e o material foi parar no chão. As paredes estão pichadas. Há medo: "Já ameaçaram professores de morte, meu carro já foi riscado, pneu de carro furado”, disse o professor Edvaldo de Sousa. O portão principal está quebrado e não fecha mais. Os muros são baixos e as telas, que ajudariam a proteger, estão arrebentadas em vários pontos. “A vontade era de chorar, a gente luta pra melhorar a escola e acaba acontecendo isso”, disse o aluno Nicolau Beltrão, que é voluntário na escola. 19/10/09 - 12h43 -
•    Polícia Civil fecha baile funk suspeito de prostituir alunas de escola no ABC. 75 crianças e adolescentes foram para delegacia em São Bernardo. Meninos seriam aliciados pelo tráfico; organizadores foram presos. - os dois organizadores do baile, que são adultos, ficavam na porta da escola para convidar os estudantes para a festa funk, realizada perto de uma favela na Vila São Pedro. Ainda, de acordo com a investigação, os adolescentes consumiam drogas e bebidas alcoólicas. 23/10/09 - 12h43 -
•    Vídeo com cenas de sexo entre jovens causa polêmica em escola de Belém - Gravação foi feita no vestiário da quadra da unidade de ensino. Direção disse que ficou surpresa com comportamento dos alunos. 23/10/09 - 07h53 -
•    Alunos da 4ª série brincam de tráfico em escola pública gaúcha - ... Segundo testemunhas, eles quebraram o giz da lousa, moeram até que virasse pó e embalaram em plásticos. Na brincadeira, grupos teriam de angariar mais usuários e conquistar bocas de fumo. O caso ocorreu em sala de aula e envolveu crianças da quarta série do ensino fundamental, entre nove e dez anos. 22/10/2009 - 11h37
•    Menina de 7 anos é detida pela PM após brigar na escola e levada para delegacia - Diretoria chamou polícia alegando que criança agrediu professores. A menina estava descontrolada e tentou as agressões. De acordo com a mãe da criança, a filha sofre de um distúrbio de comportamento, toma dois remédios e faz tratamento psiquiátrico na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mas não seria tratada de forma adequada na escola estadual. Conselho Tutelar condenou a atitude policial. 16/10/09 - 06h52 -
•    Adolescente atira em colega de escola em Belém - Crime ocorreu em frente ao colégio. Um estudante de 17 anos atirou em um colega de escola, de 23, nesta quarta-feira (14), em Belém. 14/10/09 - 18h29 -
•    Adolescente é morto a tiros dentro de escola pública em MS - Criminoso pulou muro do colégio e disparou dois tiros contra adolescente de 15 anos dentro de uma escola pública em Dourados (MS), na manhã desta quinta-feira (8). Segundo a polícia, o autor dos disparos é um ex-aluno de 18 anos. Ele foi preso em flagrante. 08/10/09 - 17h24 -
•    Estudante é atingido por tiro durante aula no Rio Grande do Sul Um jovem de 15 anos foi atingindo na perna por um tiro dentro da sala de aula no fim da manhã desta quarta-feira (9) em São Leopoldo, cidade da região metropolitana de Porto Alegre. O oficial de serviço da Polícia Militar, Rafael Ramos Aro, disse ao G1 que ainda não foi confirmada a autoria do disparo. Segundo ele, não está descartada a possibilidade de ter sido o próprio garoto que disparou a arma. 09/09/09 - 17h23 -
•    Aluno é suspeito de atentado violento ao pudor contra colegas em Florianópolis - A idade das vítimas está entre 10 e 12 anos. Segundo pais, uma menina teria dito que o adolescente de 13 anos mostrava uma faca e pedia para as meninas o acompanhar até um matagal próximo ao colégio. Segundo a direção da escola, existem oito câmeras de vigilância no estabelecimento e seguranças 24 horas por dia. 29/05/09 - 18h53 -
•    Estudante de 13 anos morre esfaqueado por colega em escola em Belém - Um estudante de 13 anos morreu esfaqueado por um colega dentro de uma escola em Belém, nesta quarta-feira (19). O agressor, que tem 15 anos, foi detido.... o agressor disse que tinha discutido com a vítima, na terça-feira (18), ainda na escola. 19/08/09 - 17h13 -
•    Estudante é baleado dentro de escola no Paraná - Garoto foi baleado nas costas ao separar briga entre colegas.Segundo a polícia, autor dos disparos tem 17 anos e fugiu. O autor dos disparos foi um rapaz de 17 anos, que fugiu. Outro adolescente envolvido na briga foi detido. 04/06/09 - 17h44 -
•    Menino é agredido por colegas em escola no interior de SP e vai parar no hospital - Um menino de 9 anos foi agredido na saída da escola, em São Joaquim da Barra, a 382 km de São Paulo, por colegas de classe e teve de ser hospitalizado. Ele teve uma lesão na coluna cervical e vai precisar de um colete ortopédico por alguns dias.O garoto, que é gago, recebeu socos e pontapés na cabeça e nas costas de pelo menos cinco meninos, todos com menos de 12 anos, na quarta-feira (16). Foi para casa, mas não quis revelar à mãe as agressões. Na quinta-feira (17), no entanto, com muitas dores, foi levado a um hospital da cidade. 18/09/09 - 17h52 -
•    Alerta - Escolas do estado de SP denunciam cem casos de violência por dia - Todos os dias, pelo menos cem das 5.400 escolas da rede estadual de educação relatam enfrentar casos de violência, que vão desde a agressão verbal a professores até casos mais graves, em que há a agressão física a funcionários e docentes. 10/10/2009 16h28m -
•    a Escola Estadual Firmino de Proença, onde o governador José Serra estudou durante a adolescência, foi totalmente depredada pelos alunos após a PM prender dois estudantes. Outro episódio grave de vandalismo aconteceu na Escola Estadual Amadeu Amaral, em novembro do ano passado. Segundo a polícia, de 12 a 20 estudantes participaram da motim que destruiu a escola. 14/05/2009 -
•    Polêmica na escola -Educação e segurança Unidade de Ribeirão preto quer separar horários de alunos para evitar brigas; mães rejeitam ideia e pedem policiamento... a partir do ano que vem, alunos do 1º ao 4º ano estudariam à tarde e do 5º ao 8º ano, de manhã. ... há brigas constantes entre os adolescentes no pátio e no horário de saída. Além disso, pessoas “estranhas” frequentam as imediações da escola e é comum os alunos matarem aula. Uma mãe relatou o uso de entorpecentes por alguns estudantes de 5ª a 8ª na escadaria de uma igreja, localizada em frente à escola."Aqui não tem ronda, guarda. Nós já falamos que poderíamos rachar entre as mães o pagamento de um segurança particular, mas a direção não aceitou”, afirmou a faxineira Rafaela Aparecida da Silva, 25 anos, mãe de um aluno do 2º ano. Publicada em 21/10/2009 -

É para parar e refletir, não? Claro que cada notícia merece análise individual. Mas aqui me interessa exatamente o conjunto, do qual se verifica a existência do medo, da anarquia, do desnorteio de professores e direções, da violência grave, crua e assassina, do desprezo pela instituição que parece não ter mais sentido para parte importante da nossa juventude. Poderia acrescer às notícias acima a guerra do Morro dos Macacos, no Rio, durante a qual uma escola foi invadida por criminosos.

Muitos me acham um sujeito meio em pânico, com um farol de alerta sempre aceso, atrapalhando o sono alheio. Nada disso. Não há pânico e eu até durmo bem e deixo dormir. Mas não embarco no delírio do otimismo fácil nem me ausento do mundo em desabamento. Enxergo, somente. Há, comigo, o senso de realidade e a urgência da indignação. E esse apanhado de notícias será, para muitos dos caros leitores, como a percepção daquele pré-adolescente acanhado que não vemos há algum tempo e que, no reencontro, nos aparece de barba na cara e voz grossa Quando foi que ele cresceu assim, e não vimos?

Tenho visto muita desgraça que, em silêncio  aguardando a hora do bote,  espreita na curva logo ali, esse bloco carnavalesco e míope que passa aqui, em plena primavera, querendo liberar drogas, confundindo direitos dos menores dos 18 anos com o seu império, omitindo-se da responsabilidade - que é coletiva! paremos com o jogo de empurra família x escola x sociedade x mídia! ou todos acordamos ou não faremos nem cosquinha na crosta dura da crise - na criação de limites e parâmetros dignos para referir uma sociedade à deriva.

Essa questão da escola é um alerta vermelho grave, porque os adultos de daqui a pouco lá estão. Pais e mães, amanhã serão. Dá prá perceber o desastre?

Há muita disputa em torno de valores, o que os faz (os valores) móveis, derretíveis, oscilantes, gelatinosos. É que, ofendida com a maioria tantas vezes inábil e insensível,  cada minoria põe seu valor (ou melhor, sua interpretação de valor) embaixo do braço e tenta impingi-lo à sociedade. Como é incorreto - e com certeza o é  - esmagar minorias, cerceá-las ou cobri-las de preconceitos, com medo do estigma de conservadores, hipócritas e fascistas (como recentemente venho sendo chamado por defensores da Marcha da Maconha, que combato), calamo-nos todos.

A sociedade é uma construção coletiva, necessariamente, portanto, uma disputa. Sempre haverá a tentação de opressão em mãos do mais forte. Mas também haverá, agora, com a arma do preconceito às avessas, o mais fraco, muitas vezes, usando muito injustamente essa força justamente angariada por luta concreta e direito constitucional. É que a opressão, já 'ensinaram os antigos', faz no oprimido, a seara do comportamento rejeitado, agora repetido. E há um complexo de minorias agregadas que se torna uma espécie de maioria de ocasião, e como tal, organizada que é atua, esfarelando as bases da sociedade antiga. Uma coisa é modernizar a sociedade, arejar-lhe os valores, outra coisa é fazer dela terra arrasada. E, o pior, a mídia contribui e dá amplitude maior  a esse clima, porque  muitas dessas ‘minorias’, consumidoras que são, exercem seu poder maior, que não é necessariamente o da cidadania, mas o do consumo.

Precisamos voltar a certos parâmetros sociais, nortes de convivência básicos. Criança é máxima prioridade, mas não é um império. Pais devem disciplinar filhos, e se levarmos a extremos essa crítica da palmada, por exemplo, em breve chegaremos a achar que a palmada moral de um corretivo verbal enérgico também deve ser coibida. “Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”. Não é por falta de palmada que o autoritarismo castrador deixará de existir. Combatamos com veemência o espancamento, os maus-tratos e o abuso sexual dentro dos lares, mas combatamos também as famílias à deriva, os genitores "sem noção", os pais ensaboados, os que pedem “por favor” coisas que deviam, sim, ordenar.

Precisamos de que profissionais das ciências sociais, das áreas de pedagogia, psicanálise, parem de, a pretexto de estimular essa emancipação do “eu”, essa construção do sujeito autônomo e independente, exercitar tanto experimentalismo inconsequente, evitando o uso dos nomes que as coisas têm. Limite é proibição e ponto. Não me venham com eufemismos. O eufemismo pode ser a morte da verdade.

Outro ítem relevante. Velhos merecem respeito, mas velhos também merecem honrar seus cabelos brancos, meus queridos avós, ou seja, devem orgulhar-se da distinção da prata dos tempos, das rugas conquistadas com tanta batalha e sofrimento, medalhas da vida digna e honrada. Não saírem por aí se esticando, se enchendo de botox e tinturas. Velhinha jovem e saudável a Dona Canô. A Cora Coralina. O Niemayer. Velhos sem artificialismos. Em que a velhice não é mazela. É fase da vida. E como viveram bem a infância e a juventude, vivem bem a velhice. Viveram muito, lutaram muito, se orgulham disso. Têm o que contar e a ruga, o cabelo branco, o anuncia. Não aceitem, queridos idosos, a ditadura da juvenilização mercantilizada. Que as velhinhas quando muito, pintem o cabelo de azul claro, como lindo era ver antigamente.

Ah, e não posso deixar de dizer, drogas são drogas, mesmo sem eufemismos. A polítia nacional sobre o tema não pode ser “sobre drogas” tem que ser “contra as drogas”. Dependente químico é viciado, não um ‘usuário que abusa’, porque é tão infima, tão exceção, a parcela que apenas usa, que não compensa turvar o discurso de combate às drogas com a filigrana apenas supostamente mais correta politicamente. Comportamento de exceção é comportamento de exceção.

Aliás, no gancho da última frase acima, não se pode imaginar que o comportamento homossexual seja o parâmetro do bom amar, apenas porque casamentos heterossexuais dão errado. Dos tantos amigos homossexuais que tive e tenho, posso concluir com convicção que 'lá como cá', pelas agruras dos afetos fabricados, artificializados, cobertos de paixonites e egoísmos, há uma grande maioria de relacionamentos desastrados, com ilhas de prosperidade emocional e estabilidade, no meio da neblina. Por isso, não acho, por exemplo, que a questão do 'estoque' de crianças não adotáveis, será resolvido com a adoção por homossexuais, como parecem querer crer alguns. Conheço pais (casais) homossexuais generosos, centrados, estáveis, exemplos. E conheço pais homossexuais desastrados, inseguros, que abandonam o barco, que partem noutra aventura, sem olhar para trás. Conheço, inclusive adoções precipitadas e desastradas, com filhos reduzidos ao vício e ao desajuste. Claro que tudo como também ocorre entre heteros! Logo: contra o preconceito, todos! Mas sem a arrogância de alguns, de querer ditar comportamentos e ainda por cima misturando na luta, tanto o homossexual centrado como o que apenas quer mais conforto para ser libertino!

E lembremos da unicidade das coisas (não falo de monismo, Deus não “é” tudo, Ele “criou” tudo. Estar não é ser). Lembremos do sagrado que mora em nós. Do berço de onde viemos. Do Deus que gerou universos fora deste universo e gerou universos dentro de nós. Deus. Este, um caminho de volta a ser feito. Esta, uma praia onde ancorar nosso barco triturado de navegações mal feitas.

Haveria muito mais a dizer, mas encerro, porque esta coluna está muito desabafo. E termino aqui fazendo uma prece por Rafael Ilha, esse rapaz tão sofrido e injustiçado, que novamente é chicoteado por parte da mídia (por incrível que pareça, parabéns pelo silêncio, Rede Globo!), após sofrer uma terrível recaída. Que Deus o proteja nessa dura batalha.

E não podia faltar minha prece também por Luiz Prôa, poeta, organizador do generoso sítio da internet "alma de poeta", pai do jovem músico dependente químico que, surtado, assassinou a moça de 18, no Rio de Janeiro. Que Deus o conforte e fortaleça.

Dito isso tudo, retornemos àquelas escolas todas da coletânea de notícias com outros olhos. E lutemos! Na seara da digna operação do Direito, tirando-lhe o gesso e pondo ali um coração; na guerrilha persistente do sonho da Educação, no cotidiano de trabalhar por uma família saudável, lutemos. Só a cotidiana luta do bem pode, nestas horas, produzir alegrias e nos fazer sonhar com escolas que não sejam as geladeiras de antigamente, mas que não sejam também os açougues de hoje. Escolas que sejam jardins.

Conforme a NBR 6023:2000 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), este texto científico publicado em periódico eletrônico deve ser citado da seguinte forma: ARAÚJO, Denilson Cardoso de. Que terríveis dias. Que dias tristes! Que a alegria da luta nos conforte! - Autor: Denilson Cardoso de Araújo. Clubjus, Brasília-DF: 10 nov. 2009. Disponível em: <http://www.clubjus.com.br/?colunas&colunista=2468_Denilson_Araujo&ver=508>. Acesso em: 08 set. 2010.

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Quarta, 08 de Setembro de 2010
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