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Quarta, 01 de Julho de 2009 17h37
DENILSON CARDOSO DE ARAÚJO: Serventuário de Justiça do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, http://denilson_araujo.blog.uol.com.br/
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Michael Jackson - A tragédia da cinquentenária criança - Autor: Denilson Cardoso de Araújo

Denilson Cardoso de Araújo


Aquela criança pobre teve a infância roubada. Este é o resumo. Havia trabalho escravo, ensaios de quinze horas, mas havia confeitos, festas, brinquedos... o menino se conformava, sem perceber o quando sua vida lhe era arrancada. Havia ensaio-tortura e palco, ah, mas havia aplauso e circo... o menino se conformava. Daí descobriu-se capaz de voar e foi longe, foi alto, foi até onde ninguém jamais tinha ido. Pôs elástico nos ossos, pôs cristais na garganta... mastigou dez tamborins e vinte banjos. Virou um band man. Mascou na alma um chiclete de Elvis, Fred Astaire e Peter Pan. Tinha mil faces, mil nomes, codinomes. Pássaro enluvado e prateado.

Quando viu, tinha 30 anos. Assustado como um menino-lobo que chega ao mundo civilizado, como um Kaspar Hauser largado na praça... Não percebia bem certos códigos, não se conhecia no espelho, não sabia bem a que sexo pertencia. A fase da descoberta havia passado. Mas, como criança, dormia com crianças. As acariciava, criança grande, curioso, brincando atrasado. Só que agora o que em infância seria só um preocupante brinquedo tinha nome abjeto e era objeto penal.

Casou-se, a sociedade pedia, e como tudo em sua vida, simbólico foi o primeiro casamento. O Rei do Pop recebia no altar a herdeira do Rei do Rock, Lisa Presley, a filha de The Pelvis. Nada mais adequado. Mas foi só um brincar de casinha... Não menos significativo, o casamento seguinte: a alma doente escolhe a enfermeira, a que prestava cuidados...

Logo viu-se: o filho pendurado na janela do hotel, o horror, o horror de quem via, mas se esquecia que ele mesmo fora cedo pendurado na janela da mídia, sacudido pelas exigência de um déspota paterno. A família precisava comer. O menino prodígio bailava. Encantava. Andava ao contrário, aquele menino. Isso devia já dizer tudo. E, mais ainda, andava na lua... moonwalker que era. Cavaleiro da lua. Príncipe da ilusão. Foi morar num parque de diversões. Era rico, agora. Trazia o acervo dos Beatles na mão. Era alto, agora. Tinha o mundo como chão.

Mas como a toda criança que sobe em lugar muito alto, surge forte a queda inerente, sua aptidão. Vem outro filho, e o pai desastrado, que boa paternidade não vira, opta pela inseminação. Simbólico, novamente, filho de incubadeira que era. Frango engordado para o abate do espetáculo.

Houve a doença estranha, a dúvida sobre sobre o vitiligo, a acusação sobre a raça negada... Vitiligo assim, ele não sabia, dá é na alma, coração que logo descora... assim são crianças da vida infante precocemente arrancadas. Vieram então os véus, as máscaras, as burcas, os esconderijos... Como a criança que se esconde depois de flagrada, se esconde debaixo da cama, dentro da arca, se esconde.

Quando viu, tinha meio século, o menino. Vieram denúncias. O povo cobrava do adulto de corpo, o adulto de alma que, ali, simplesmente não havia. A criança, por trás daqueles olhos, daquela pele alva, assustada, espreitava. Tinha medo dos bichos no sótão, tinha pânico e vertigens nos pés. Aparece um dia, na TV, algemado. Ninguém viu, mas lá estava aquele negrinho que cantava "Ben", ali, agora, com uniforme militar de palco, algemado, o menino, algemado e assustado, porque brincara atrasado.

Acordos, aproveitadores, sensacionalismo... a criança: acuada!

Meio século. O rosto deformado. O garoto a quem o falar do pai tornara um complexado ("Como você é um negro feio, meu filho"), reagia, mascarando a inexistente feiúra numa máscara que podia ser usada num palco, em Eurípedes, uma tez grega, uma parca negra, um ser que arrasta seus ossos por Atenas noturna, arrasta sua alma, arrasta sua alma, a criança envelhecida, e chora.

Shakespeare não obteria um tal roteiro, Sófocles jamais o adivinharia. Sócrates, apenas o indagaria.

O gênio menino, amaldiçoado. Como no poema de Pablo Neruda, em que a sereia, pura, bela, linda, nua, sai do rio e, desavisada, entra no cabaré. Está nua. Os homens sebentos de álcool não entendem. Apalpam-na, queimam-na com cigarros, confundem sua inocência com torpeza e a massacram... Até que a sereia, inchada, machucada, com a ingenuidade amarfanhada, foge e se devolve ao rio, com suas interrogações sangrando a dor das eternidades.

A tragédia da criança sem infância, é o que fica. Michael não seria menos gênio se o pai aguardasse o fruto amadurecer. Se lhe permitisse um sábio, pausado, saudável crescer. Criança que não brinca, é criança triste. Vai depois brincar na vida, quando o perigo já existe.

A tragédia da criança sem afeto, é o que fica. Michael seria ainda mais gênio, caso viesse o afeto paterno, a paciência, a renúncia! Sim, porque se tratava de renunciar ao dinheiro, ainda que o de matar fomes. Não pode uma família comer às custas da morte de um filho. É canibalismo afetivo, cruel, sequer ritual. Como o pai que bota a criança vendendo bala no sinal, ou mendigando na praia. Ou que a vende ao bordel, e, neste caso, ao bordel do espetáculo, que paga bem, mas cobra sempre mais caro.

A tragédia do ser que, sem pai adequado, bom pai não será, é o que fica. Michael não tinha como saber paternidades, afetos, cuidados... Não importa o que se diz aos nossos filhos. Importa o que realmente fazemos. É o que guardam.

A tragédia do tempo nunca recuperado. Os 50 shows de retorno não realizados são como os 50 anos que não podem ser retornados. O berço, foi-se. O brinquedo, inexistiu. O afeto, morreu. O pai, abusou do menino. As cicatrizes estavam todas à tona, sangrando, o tempo todo. Mas o que a mídia queria era espetáculo. Que grande morte, agora têm, para seus horrendos cardápios!

Em cada favela, em cada condomínio bacana, em cada esquina, há Michaels viventes e projetados. Estes, os meninos empurrados à batalha da vida, da fome, do pão, atacados pelo sexo predador e precoce. Aqueles, adultos já, tortuosos, tortos, estragados, porque adultos mal formados, porque arrancados cedo demais do ovo, carregam até agora um pedaço de casca na orelha, uma sede de leite materno, um afago paterno que não veio e lhes falta, como falta... dói no peito essa lacuna que clínica nenhuma descobre.

Que a morte de Michael Jackson, cujo coração de menino parou, nos leve à reflexão sobre a imperativa necessidade de preservar em seu casulo, no tempo certo, a infância. A juventude. Para que quebrem a casca com suas próprias asas, no tempo certo. No tempo certo. É o que manda a Constituição, é o que prega o ECA. É o que ensina a tragédia!



Conforme a NBR 6023:2000 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), este texto científico publicado em periódico eletrônico deve ser citado da seguinte forma: ARAÚJO, Denilson Cardoso de. Michael Jackson - A tragédia da cinquentenária criança - Autor: Denilson Cardoso de Araújo. Clubjus, Brasília-DF: 01 jul. 2009. Disponível em: <http://www.clubjus.com.br/?colunas&colunista=2468_Denilson_Araujo&ver=395>. Acesso em: 09 set. 2010.

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Quinta, 09 de Setembro de 2010
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