Curiosidades Jurídicas
Quinta, 05 de Novembro de 2009 14h07
FERNANDO AUGUSTO RICARDO DOS SANTOS: Advogado no Serviço Público Federal, Sócio do Escritório Pires, Tazaki e Santos Advogados Associados (Brasília-DF), Membro da Associação Nacional De Procuradores de Empresas Públicas Federais, Especialista em Política Tributária pela FGV - Fundação Getúlio Vargas, Professor de Direito Constitucional (tendo ministrado aulas na UDF, UPIS, UNIEURO-PREPARATÓRIO OAB, IFAR CONCURSOS, VESTCONCURSOS-ASA SUL E ASA NORTE e GRANCURSOS- LAGO SUL E TAGUATINGA).

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Claudio Drewes: uma história de superação profissional e pessoal .

O procurador da República, Claudio Drewes, que é tetraplégico, conta que já foi privado de seus direitos. Inclusive na época da faculdade. Cláudio Drewes passou a ser o único procurador da República a possuir tetraplegia quando foi aprovado no concurso do Ministério Público Federal. Em Goiás, ele foi classificado em 23.º lugar, sendo que concorreram mais de 5.000 candidatos. O resultado foi possível graças à obstinação de Drewes, que tomou a carreira jurídica como seu objetivo de vida. Nesta entrevista, além do seu dia-a-dia profissional, ele conta que já passou por várias situações em que foi privado de seus direitos e também comenta a experiência de ser pai. Sentidos: Recentemente o senhor entrou com uma ação na Justiça Federal pedindo a suspensão de um concurso, já que ele não respeitava a reserva de vagas. Você pretende focar sua carreira na defesa dos direitos das pessoas com deficiência? Cláudio Drewes : Não. Eu pretendo dar satisfação aos anseios da sociedade, da qual eu me incumbi do dever de defender. Vou me empenhar em toda causa que me for apresentada. Obviamente que em relação às causas das pessoas deficientes eu tenho uma identidade e maior conhecimento, mas não vou procurar focar meu campo de atuação nela especificamente, visto que as demandas sociais são enormes. Desde que sofreu o acidente, houve episódios em que foi privado de seus direitos? Várias vezes. É difícil aqui colocar numa entrevista, mas várias vezes. Desde um meio-fio não rebaixado à discriminação velada, à discriminação patente. Eu acho que não vem ao caso trazer fatos aqui, mas várias vezes, com certeza. A faculdade que o senhor freqüentou, por exemplo, era acessível? Na UNB, no prédio conhecido como "minhocão", eu tinha amplo acesso aos vários pavimentos do prédio. Já na faculdade de direito, propriamente dita, eu encontrei barreiras arquitetônicas no prédio e diante da falta de sensibilidade, na época, de alguns, eu não pude ter acesso ao pavimento superior. Havia também a questão de alguns professores não poderem (mesmo por vaidade), não se acharem em condições de descer para satisfazer as minhas necessidades. Então eu era obrigado a me contentar com o que tinha porque alguns professores não desciam para ministrar as aulas que eu precisava participar. Eu tinha que me contentar com qualquer um outro que desse a matéria. Então eu posso dizer que tive problemas na própria faculdade de direito lá em Brasília. Na sua opinião, o que mais impede a plena inclusão de uma pessoa com deficiência na sociedade: as barreiras de atitude ou as físicas? Olha, as barreiras de atitude talvez incomodem mais, pois elas destroem a nossa, digamos, vontade de ir atrás das coisas, a nossa auto-estima, porque sabemos que iremos navegar contra a maré, então ela se torna, por isso, muito mais forte do que uma mera barreira arquitetônica. Mas é claro que uma barreira arquitetônica, dependendo da situação e da ocasião, é bem complicada também. Como foi o período de preparação para o concurso do MPF? Foi ao longo do tempo, não foi de um dia pro outro, a matéria foi se sedimentando. Com o pouco tempo disponível eu tinha que trabalhar e estudar, foi se sedimentando e um dia me senti habilitado a passar e graças a Deus deu tudo certo. Mas foi difícil porque a matéria é volumosa e eu sabia que ia encontrar muita dificuldade para fazer a provas, como havia ocorrido em vários outros concursos. Quando realizou as provas, de que adaptações precisou? Precisei da minha mesa que se encaixa na minha cadeira de rodas, de uma adaptação mentoniana, que é um dispositivo preso à minha cabeça e de onde sai do queixo uma antena com uma borracha na ponta pela qual eu manuseio os livros, os processos, digito as provas quando preciso. No caso do concurso do Ministério Público Federal, especificamente, eu ditei a prova porque era o que dava pra fazer com o tempo que eu tinha. E no trabalho, como é seu dia-a-dia? Movimentado, ainda bem. Muita coisa pra se fazer, muita demanda social, e que, graças a infraestrutura do Ministério Público Federal, eu venho conseguindo desempenhar; claro que com deficiências normais de qualquer pessoa. Quanto às minhas dificuldades físicas, elas não me causam embaraço para minha atuação, decerto demandando alguns ajustes para conseguir desempenhá-la. 2002 foi um ano de grandes realizações para sua vida pelo nascimento de seu primeiro filho. Como está sendo essa experiência? Foi um ano de muita benção pra mim, primeiro porque consegui alcançar todo o objetivo que eu tinha de vida, uma carreira que eu acho brilhante, que eu sempre almejei, desde que eu passei a conhecê-la lá na faculdade - era uma coisa que eu sonhava. Depois veio o meu lindo filho - quem não deseja ter um filho? É uma coisa espetacular que veio complementar minha alma e me dar riqueza e sentido na minha vida. Foram coisas espetaculares e tudo isso eu pude proporcionar quando meu pai , agora falecido, estava vivo. Ele pode, infelizmente falecer, tranqüilizado, sabendo que eu estava realizado tanto no campo profissional quanto familiar, com família constituída e com tudo. O senhor sofreu a lesão após um mergulho aos 16 anos. Como foi sua reabilitação e como foi passar por essa experiência durante a adolescência? Quando adolescente a gente é inconseqüente, aventureiro, não acredita muito nas coisas da vida, quer sempre desafiar e, mesmo após o acidente, eu encarava aquilo como um desafio e achava que não ficaria deficiente, achava que seria uma situação efêmera. Só que, á medida que o tempo foi passando essa sensação foi se dissipando e então percebi que a minha vida não seria a mesma e que teria que tomar uma atitude adulta e começar a perseguir algum objetivo na vida que era criar minha própria infraestrutura, minha própria independência, buscar alguma carreira profissional que me desse estabilidade e pudesse satisfazer meus sonhos e superar minhas dificuldades também. Como sempre fui otimista nas coisas da minha vida, acreditei e persisti, galgando todos os obstáculos que se apresentavam a mim. Porque decidiu seguir a carreira jurídica? De início foi por facilidade no trabalho, de acordo com a minha necessidade física. Depois que eu vi que estava lesado medular, não tinha muita coisa a fazer, embora tivesse outros sonhos de vida, antes do acidente, outras carreira a serem perseguidas, outras coisas a serem buscadas. Tive que encarar a realidade dos fatos e ver alguma coisa que fosse adequada a minha situação física. Então eu selecionei e, após, fui optando de acordo com, digamos assim, com o que ela poderia me favorecer tanto economicamente, quanto na satisfação pessoal. Daí optei pela carreira jurídica. FONTE : UOL .



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Quarta, 17 de Setembro de 2014
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