Artigos e Resumos
Quinta, 09 de Setembro de 2010 17h35
JULYVER MODESTO DE ARAUJO: Primeiro-tenente da Pol?¡cia Militar do Estado de S?úo Paulo, conselheiro do CETRAN/SP, bacharel em Direito, p??s-graduando em Direito P??blico pela Escola Superior do Minist?®rio P??blico de S?úo Paulo, coordenador e professor de cursos na ?írea de tr?ónsito



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O TR?éNSITO NO DIV?â-Julyver Modesto de Araujo

No retorno do último feriado, fui procurado por um velho amigo, cuja proximidade me torna digno de compartilhar suas angústias e aflições: reclamou-me que está cansado de ser manchete dos jornais, de ser motivo de críticas e de acusações de mortes e lesões por todo o Brasil; na sua percepção defensiva, tudo é culpa de um tal de bicho homem e de suas máquinas assassinas chamadas automóveis.

            Não sou psiquiatra, nem psicólogo, mas me senti na obrigação de ouvir um pouco mais das injustiças por ele relatadas, muito mais na posição de confidente, do que de terapeuta. E nossa conversa foi longa, buscando desde as reminiscências de infância os motivos de tanto trauma acumulado: descobri que sofreu abusos quando era pequeno: não imaginavam o quanto dependeriam dele e esqueceram de planejar adequadamente o seu crescimento; foi violentado e, com muita intensidade, introduziram-lhe toneladas e toneladas de ferro, concreto, borracha, petróleo e qualquer outra matéria-prima que fosse sinal de modernidade.

            Ponderei, para lhe dar um alento, que, em suas artérias, corre o progresso do país e o destino de muita gente, mas pareceu não me ouvir. Apesar de ter crescido muito rápido, ainda se assemelha a um menino e, pela sua passividade, continua vítima de muita violência, o que explica, de certa forma, sua frieza. Explicou-me que já viu de tudo: de pessoas mortas e despedaçadas a partos ocorridos antes da hora, de cortejos fúnebres a desfiles cívicos, de comícios políticos a festas religiosas, de passeatas de protesto a comemorações efusivas e contagiantes.

Pensei comigo: deve ser por isso que é tão temperamental – às vezes, nos parece tão calmo, mas em contrapartida, há situações que ninguém o suporta... meu pensamento acabou sendo alto o suficiente para que ele se defendesse: alegou que seu temperamento é apenas reflexo das influências que recebe... não consegue se livrar das emoções, desejos e interesses das pessoas que com ele se relacionam e, por isso, acaba agindo da maneira como conduzem os sentimentos humanos sobre ele. Neste aspecto, percebi que tinha razão: quando estamos com pressa, por exemplo, ele é o nosso maior desafio, sendo necessárias paciência e resignação para conseguir enfrentá-lo.

Na verdade, tive mesmo que admitir que ninguém gostava muito dele, apesar de precisar muito de sua existência. Na sua introspecção, reclamou também que todos acham que conhecem as soluções para os seus problemas, mas poucos se propõem a estudá-lo seriamente. E por falar em estudo sério, descobrimos mais um motivo de sua insatisfação existencial: meu amigo é cheio de regras, muitas vezes confusas e conflitantes, que causam transtornos inclusive para quem deve fiscalizá-lo: nem sempre os responsáveis pelo seu controle se entendem...

Nesse emaranhado de normas, confidenciou que, por vezes, nem mesmo sabe o que é: já se sentiu até prostituído, pelas cobranças por sua utilização, e foi tratado como entorpecente, por ter ouvido a denominação de “usuários”, destinada àqueles que com ele convivem. É realmente notório que todos querem dele usufruir e que poucos decidem abrir mão de sua própria comodidade, o que, por certo, cria um sentimento de inconformismo. Mas acabou percebendo que as depressões, as ondulações de humor e as saliências de sua personalidade eram ainda mais prejudiciais ao bom andamento da relação com os outros. Percebeu que ser tachado de “devagar” não era sinônimo de ser considerado “tranquilo": no primeiro caso, o que menos havia era sinal de tranquilidade; com a sua lentidão, as pessoas ficavam ainda mais estressadas, entediadas e nervosas.

Para animar-lhe um pouco mais, falei da sua importância para o desenvolvimento das cidades e lembrei-lhe que está constantemente em obras: do calçamento de ruas à construção de pontes e viadutos, tudo para melhorar a sua condição de existência, mas tive de concordar com a réplica de que, nas atuais campanhas eleitorais, pouco se fala a seu respeito, de maneira realmente séria. E, assim, sua estrutura me pareceu ainda mais frágil...

Continuei apontando motivos para se sentir mais acolhido: mostrei como existem pessoas trabalhando para sua melhoria constante e como seu desenrolar diário tem sido acompanhado por milhares de câmeras de monitoramento e equipamentos tecnológicos para melhor gestão dos problemas detectados.

Chegamos, finalmente, à conclusão de que soluções estão sendo implantadas, ainda que, em determinados casos, de maneira um pouco tímida. Não quis dizer mais, para não lhe deixar congestionado com minhas intervenções, mas percebi que falta, em meu amigo, um pouco mais de amor, gentileza, compreensão e solidariedade. Mas acho que isso cabe também a cada um de nós...

E você, caro leitor, está fazendo a sua parte para melhorar o TRÂNSITO?

 



Conforme a NBR 6023:2000 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), este texto científico publicado em periódico eletrônico deve ser citado da seguinte forma: ARAUJO, Julyver Modesto de. O TR?éNSITO NO DIV?â-Julyver Modesto de Araujo. Clubjus, Brasília-DF: 09 set. 2010. Disponível em: <http://www.clubjus.com.br/?artigos&ver=2.32127&hl=no>. Acesso em: 26 maio 2017.

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