Colunistas
Domingo, 04 de Maio de 2008 08h32
DENILSON CARDOSO DE ARAÚJO: Serventuário de Justiça do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, http://denilson_araujo.blog.uol.com.br/
e-mail: denilsoncdearaujo@gmail.com
http://denilsoncdearaujo.blogspot.com/


A+  |  A-

Observando Isabela caída no gramado

A doce mãe de Isabela foi uma grávida precoce. O pai, o nítido garotão mimado, adolescente tardio, com pinta de badboy, aparentemente acobertado pelo avô paterno de Isabela. Este, tudo indica, um condescendente.

O novo relacionamento veio com a mulher homônima da mãe da criança, de voz miúda e miada, aparência frágil de mulher dependente. Novos filhos. Ciúmes doentios. Nos condomínios, eram notados pela balbúrdia, que extrapolava as quatro paredes. As delegacias de polícia os conheceram. Seres humanos em desespero, querendo se agarrar uns aos outros, forçar afetos, enquanto chegava o abismo.

Um dia, vem a tragédia. Como uma explosão. O vulcão veloz, irresistível. O sangue, o choro, a esganadura, a rede cortada às pressas, e então... o indizível. O breu do abismo final e incontestável.

A menina caiu seis longos andares. Sua doçura de anjo recebeu os ventos nas narinas. O inferno. A janela do apartamento fumegando lava do casal de coração petrificado, o cérebro atarantado, inventando desculpas. A noite deitando sua sombra sobre o corpo da menina, caída na grama. Como um anjo abatido em vôo.

Daí começa a epopéia da mentira, dos desmentidos, a tragédia de erros, histórias, lágrimas falsas, lágrimas verdadeiras, encenações, entrevistas decoradas, jovens advogados heroicamente esmerando-se no que se aparenta impossível.

O povo vai às ruas, oportunistas surgem de todos os lados. TV’s inventam exclusividades, esticam o assunto, entrevistam de porteiros a pipoqueiros. A desgraça vira espetáculo. O Ibope agradece.

O País se esfaqueia com perguntas incômodas. Quer enxergar a monstruosidade alheia. Como filhos de classe média, que tiveram tudo... como? É um espetáculo catártico, um linchamento, onde purgamos, sem perceber, nossas próprias culpas. Sim, porque lá estão, em torno daquele corpo miúdo estendido na solidão daquela noite, nossas mazelas.

A monstruosidade nossa de cada dia. Homeopática. O egoísmo dos relacionamentos fugazes. A imprevidência da gravidez precoce. A desconstrução da parentalidade provocada pelo novo elemento de referência que se constrói no padrasto ou na madrasta. A chaga da chantagem emocional em que pais separados leiloam-se aos afetos da criança. A criança, desancorada, navegando ao dissabor dos afetos inconstantes, tendo que aprender personagens que dançam conforme a música. O pai de Alexandre, que esconde as faltas do filho, o cobre de favores, que o acoberta e, assim, o desprepara.

Mas é importante dizer que, afora patologias, a monstruosidade pode ser uma construção, coletiva e consistente, ainda que inconsciente.

Estamos condicionados à fugacidade. O mundo é hoje rápido, on-line, real-time. Mas a pressa é amiga da imperfeição. Por isso o sistema, que precisa da imperfeição, precisa de velhos que se envergonhem dos cabelos brancos. Velhos, afinal, quando autênticos, são desconfiados, são lentos. O sistema não os quer. Já as crianças, sempre apressadas, ganham voz, sendo preparadas para máquinas de consumo, ou robôs pedintes.

Quando adolescentes, já fisgados pela fugacidade, pelo “ficar” como modelo de relacionamento, recebem camisinhas nas escolas. Crianças descobrindo o sexo sem terem descoberto a vida. Amanhã crianças embalando crianças. Ou crianças abortando crianças.

Com lanternas das lutas de 30 anos atrás, os modernos querem iluminar um mundo que girou um século, nesse período. O flower-power e seus apetrechos, liberação sexual, busca de nova consciência, experimentações químico-sensoriais, combate à família tradicional, hoje, produz cânceres. Não contavam com a globalização. Não contavam com a Internet, ensinando, dentro de nossos lares, nossos filhos a fabricarem bombas, praticarem sexo com animais ou suicidarem-se. Não contavam com o descaramento do mercado invocando, absurdamente, a proteção sagrada da liberdade de expressão, conspurcando-a para vomitar-nos publicidade e venenos de toda ordem. Não percebem, mas aquelas luta, ficaram velhas. O sistema as esgarçou até transformá-las em novos modelos de dominação. O sexo livre virou sexismo escravizante. A luta contra a autoridade deu em baderna. As belas canções libertárias viraram jingles. A rebeldia Rolling Stones, uma multinacional. O movimento hippie, boutique.

Se o mundo deve ser um comercial de TV, a dor, qualquer dor, é sempre uma indesejada. Só que, sem dor, a musculatura emocional não se fortalece. Assim, ficamos uma sociedade emasculada. Não sabemos resistir. Parafusos de geléia, como disse Içami Tiba. E, como na história de Ibsen, vamos todos virando rinocerontes. Clonamos modelos da TV, com a mesma tintura de cabelo, a mesma bunda de silicone, os mesmos bíceps de anabolizante, o bronzeado da estação. Nossa espiritualidade se limita ao culto milagreiro ou à missa aeróbica, sem comprometimentos reflexivos e comportamentais. Não há transformação, há spas emocionais. Nossos fundamentos espirituais virão da leitura de um Paulo Coelho dominical. Nossas ansiedades pela grande verdade por detrás das coisas, saciar-se-ão num medíocre Código da Vinci qualquer, de preferência, resumido.

Se a vida só é reconhecida como um comercial de TV, loira, ensolarada, de bons músculos, e tênis de marca, qualquer forma de vida que fuja desses padrões não merece vida, vida não é. Anencéfalos, embriões, fetos indesejados, doentes graves, idosos. Eutanásia, aborto ou atirar pela janela o que incomoda, qual a diferença? O importante é preservar nosso conforto. Ainda que para isso a vida deixe de ter sacralidade.

É por isso que a monstruosidade do caso Isabela é, de vários modos, familiar daquela em que sucumbiu João Hélio, e não menos consangüínea daquela em que Suzane Richthofen planeja o assassinato dos próprios pais, e ainda, daquela em que o pai austríaco mantém encarcerada a filha, como escrava, durante 24 anos. O outro é uma coisa, um obstáculo a ser removido, ou um objeto a ser usado.

Na esfera do Direito, nos preocupamos com os aspectos legais, técnicos, estudantes se empolgam com as alternativas do caso, discutem-se laudos, falhas, caminhos jurídicos.

Importante que reflitamos sobre o contexto mais profundo. No campo do Direito é oportuno pensar nas imensas inconstitucionalidades praticadas no dia a dia contra os direitos de idosos, crianças e adolescentes, e de todas as formas de vida. É preciso que lembremos das Isabelas e João-Hélios das periferias, nunca citados, mas cotidianamente martirizados. A TV, concessão pública, com característica de serviço público, precisa ser repensada, a publicidade, com suas funções de condicionamento comportamental, não deve ser observada na ótica da liberdade de expressão. A Internet não pode seguir sendo terra de ninguém. Alguém precisa, antes de lhes dar camisinhas, dizer aos jovens que, não, eles não precisam praticar sexo às pressas, antes da hora, apenas para agradar à turma, não encalhar, ou apenas provar uma pobre macheza sem afetos.

É preciso que privilegiemos a reflexão ética em todas as esferas. É necessário que os alunos dos cursos de Direito prestem mais atenção às matérias de base dos primeiros períodos, como Filosofia e Sociologia. O Direito não deve ser um manual de construir geladeiras, aperta-se este botão, depois se aparafusa àquele.

É fundamental que as famílias recebam apoio e debates amplos sobre o seu papel. A isto deveriam se dedicar as escolas, aproveitando a capilaridade do sistema educacional, criando grupos de pais, de auxílio mútuo, para debaterem, a autoridade e o papel da família. Estimulando a postura crítica. É preciso resgatar-se a sacralidade da existência, o valor do ser, e ensinar a pobreza do meramente ter.

Ainda não sabemos o que, exatamente, aconteceu. Temos laudos, indicações, indiciamentos. Haverá contestação, a justiça ainda falará. Mas o quadro construído é forte demais. Há uma menina, assombrando as noites do Brasil, morta no gramado, que podia ser da nossa casa, da pracinha da esquina. Por isso, reflitamos. Sei que este não é um artigo convencional. Pois bem, que fique como carta aberta, a ser posta à beira do túmulo que abriga os restos da doce Isabela.

Conforme a NBR 6023:2000 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), este texto científico publicado em periódico eletrônico deve ser citado da seguinte forma: ARAÚJO, Denilson Cardoso de. Observando Isabela caída no gramado. Clubjus, Brasília-DF: 04 maio 2008. Disponível em: <http://www.clubjus.com.br/?colunas&colunista=2468_&ver=225>. Acesso em: 09 set. 2010.

362 visualizações
topo da página
© 2007-2010 Clube Jurídico do Brasil - Todos os direitos reservados.
Desenvolvido por ClubJus
Quinta, 09 de Setembro de 2010
Clube Jurídico do Brasil